Já passava da meia-noite...e o sorriso torto, os olhos ensolarados, como diziam, brilhantes de dar gosto e a voz suave, agora tornavam-se apenas os rastros de um longo, calmo e maluco dia...Sentia no peito um trepidar incompreensível...
- Mas o que é isso? Droga!
Não esperava um segundo apenas que pudesse compreender o que lhe ocorrera. Estava jogada no sofá, assistindo alguma bobagem na tv, o telefone celular ao seu lado (como sempre, diga-se de passagem) e as memórias, não só as boas, não só as ruins. A vontade, o desejo, ansiosamente a espera por algo. No mais, só havia ali o vazio/nada preenchendo lugar nenhum. Mas ela ainda estava ali, e sentia falta. De que? Eu não sei. Mas sentia.
- O que faz tanta falta?
Perguntava-se enquanto vagueia de um lado para o outro. Alguns cômodos do apartamento já podiam se ver gastos com o seu caminhar descalço.
- Não sei. Não sei. Não sei!
Ela indagava-se cada vez mais sobre tanta angústia.
Talvez estivesse sentindo dor. Talvez fosse o tédio. A solidão que a acompanhava por esses dias. Ou até mesmo alguma premonição macabra de que alguma coisa fosse acontecer.
... ... ...
Mas ela simplesmente não sabia.
O não saber é algo tão perturbador que seria incapaz de desejar algo do tipo para um inimigo meu. A verdade dói, a ignorância é confortante, agora a desconfiança é a pior das sensações. Você desconfiar de algo e não ter certeza, seja uma resposta boa ou ruim, é algo destrutivo e perverso. Acho que quem criou a desconfiança e a dúvida, devia estar com muita raiva ou mágoa.
Uma das maiores dores que já presenciei foi a de descobrir coisas pouco a pouco. Coisas que machucavam, era como ter uma ferida muito grande e dolorida, e quando ela está fechando alguém mete uma faca e abre ela de novo, de forma mais dolorida e pior.
Mas as vezes quem mete essa faca na ferida e a abre de novo sou eu mesma...e nem sei porque. De novo o não saber se encontra na nossa história...Mas essa não é uma história triste. Não! ... Espero eu. É uma história feliz.
Vamos em frente...
Ela seguia pela casa...andava de um lado pro outro. Ligava a tv, desligava, jogava, parava, mexia no computador, pensava, implicava com o gato, sonhava acordada, olhava o celular...nada.
Uma luz piscante no meio da noite... uma esperança...
- Mande um sms agora mesmo para *888 e concorra a um super prêmio... ... ... bla bla...
Não era o que esperava. Senta-se cabisbaixa e desmotivada...
- Que droga! Alguma vontade de chorar...
Mentira...seu choro não vinha e quando pensava que poderia chorar...parecia que as lágrimas recuavam e seus olhos secavam novamente. Pobre menina! Não sabia chorar.
Mais alguns minutos, a televisão no mudo, de saco cheio de tanto olhar para tela colorida, resolve fechar seus olhos e dormir. O sono não vem.
- Maldito sono! Por que nunca aparece para me visitar a noite, como faz com todas as pessoas normais?
Olha para o teto branco esperando alguma resposta que sabe que não virá. Mais uma vez enfia a cara no travesseiro. O gato dorme. Ela olha doce e implicante, vingativa. Sabe que quando conseguir dormir ele vai miar alto e acordá-la. Pensa por alguns minutos em fazer o mesmo, mas se desfaz da idéia. Não seria justo com o pobre bichano. Ele não está tão acostumado com a sua presença assim. Afinal ela não é dona dele, só está ali de favor, cuidando enquanto seu irmão viaja pela europa.
Mais alguns minutos e nada vem a sua mente.
- E se eu jogasse video-game? ... (ela mesma se responde) ... Não. ... Talvez colocasse um filme? (ela ama filmes) ... Não. ...Um seriado? ... Nem pensar. ... Ok! Desisto! Vou dormir.
Mais uma mentira. Ou quem sabe um sonho. Mas dormir ela não ía, não assim tão fácil. Esqueça menina, faltam poucas horas pro dia amanhecer.
Uma vez disseram que ela era uma vampira...ela acreditou...nunca mais dormiu de noite...odiava a luz tão forte do dia...amava intensamente...e no final das contas adorava morder...Era mesmo uma vampira...Com seu ar intocável, educado e gentil...atraente e sedutora de seu jeito. Com um jeito meio moleca. Ela continuava ali acordada, pensando no...
- O que os vampiros fazem pra ganhar tanto dinheiro?
Tinha alguns desejos estranhos...
- Queria poder ser tão rápida quanto um vampiro. Correr km em segundos. A essa hora eu estaria em Tatuí...
Olhou para os lados e meio sem graça já sabia o motivo de tanta angústia. Deixara alguém que nesse momento encontrava-se em uma cidade chamada Tatuí.
- Droga!
Pensou ela rapidamente.
Na verdade não queria sentir o que sentia.
- Por que o amor tem que ser uma droga?
Mesmo que repetisse essa frase, só ela sabia o sentido dado a palavra Droga naquele momento.
- Um narcótico ou maconha seria algo mais proveitoso e simples de achar.
Agora sim podia dividir com o mundo o sentido que dava aquela palavra.
- Mais uma vez...burra burra burra!
Batia a mão aberta na cabeça.
- Tão estúpida! Quando você vai aprender?
Falava consigo mesma como se fosse realmente outra pessoa.
- Não basta que te maltratem, que te enganem, que terminem com você de mil e uma maneiras diferentes?
E não foram poucas, acreditem.
- Faça uma vez algo por você. Contabilize...2 exús, um fora na frente de todo mundo, não encostar em você, receber convites de encontro na sua frente, aliás...não na sua frente, o recado ser dado por você...o que mais? Ah sim...não esqueça...ser trocada por um caso virtual...que não saiu da real...dois dias depois de insistirem pra você pedir em namoro.
Quanta coisa aconteceu em 2 décadas, menos de 1 década de namoros e relacionamentos...se não fosse seu amigo gay...talvez estivesse destruída hoje...
Mas ainda pensava em Tatuí...seus olhos não podiam enganar...nem sua ânsia e muito menos aquela vontade de estar com alguém...não qualquer alguém...um só...
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